Saúde Oral na Diabetes

Saúde Oral na Diabetes

A médica dentista do Hospital da Luz, Ana Rita Fradinho, explica a relação existente entre a saúde oral e a diabetes. Sublinha, ainda, a importância da inclusão da consulta de Medicina Dentária no acompanhamento regular de doentes com diabetes.

A diabetes mellitus é uma das patologias metabólicas mais faladas mundialmente, não só por apresentar um crescimento preocupante, como por, comprovadamente poder ter interferência em praticamente todos os mecanismos celulares do nosso organismo.


Sabe-se que a diabetes tipo 2 aparece, de uma forma geral, silenciosa e quando é diagnosticada pode já estar presente há vários anos. Este facto tem como consequência a possibilidade de estarem já presentes algumas complicações tardias da doença na altura do diagnóstico.


O risco de complicações como doença cardiovascular e neuropatia aumenta durante a fase pré-diabética, na qual os doentes podem apresentar já uma síndrome metabólica, embora sem a diabetes declarada. Assim, é possível que as implicações na saúde oral atribuídas à diabetes, possam ser mais elevadas entre, não só, os 2/3 de doentes já diagnosticados e 1/3 dos doentes que não sabem que têm diabetes, mas também entre um maior número de pessoas pré-diabéticas. Atualmente, sabemos que por cada dois diabéticos conhecidos estima-se que exista pelo menos um desconhecido.
Todos estes dados tornam evidente a importância de, não só controlar metabolicamente estes indivíduos, como prevenir e tratar precocemente as comorbilidades relacionadas com a doença.


A hiperglicemia crónica é acompanhada por aumento de glicose salivar, o que facilita a formação de placa bacteriana e consequentemente de cáries e infeções fúngicas oportunistas, sendo a mais comum a infeção pelo fungo Candida albicans, levando à famosa candidíase.


Por outro lado, o fluxo salivar pode ser afetado, promovendo uma sensação subjetiva de secura oral denominada xerostomia. Muitas vezes aparece associada a uma complicação da diabetes chamada neuropatia periférica, onde ocorre lesão dos nervos periféricos, devido à hiperglicemia crónica. Estes sintomas podem estar associados a uma sensação de ardor ou dor e dormência da boca, que tem o nome de síndrome de boca ardente.


Outra consequência do mau controlo glicémico é a afetação da microvascularização sanguínea, onde se pode verificar o espessamento da membrana basal com alteração da permeabilidade, incapacidade de migração de leucócitos e hiperemia, causando hipoperfusão durante o stress e hipóxia dos tecidos. Estas alterações atrasam a cicatrização das feridas e potenciam a infeção aquando uma cirurgia ou numa lesão causada por exemplo por uma prótese dentária.


Uma das patologias orais mais estudadas ao nível da sua associação com a diabetes é a doença periodontal ou periodontite. Esta é uma doença multifatorial que é iniciada e perpetuada por um complexo bacteriano predominantemente gram negativo que coloniza a zona subgengival, e que é altamente agressivo. Quando em altas concentrações, produzem uma resposta inflamatória, que leva não só à inflamação gengival como também à perda óssea subsequente, levando muitas vezes à perda dentária. Para a sua progressão são essenciais fatores relacionados com a suscetibilidade do próprio hospedeiro, e é neste campo que entra a correlação com a diabetes.

O processo inflamatório gerado pela doença periodontal acaba por afetar todo o organismo, promovendo uma resistência secundária à ação da insulina, o que por sua vez leva a um aumento da glicemia. Conclui-se portanto, que esta é uma relação bidirecional, sendo que quando a diabetes está mal controlada, a severidade da doença periodontal parece aumentar e vice-versa, estando o processo inflamatório associado a ambas as doenças na base da sua relação.


Todas estas patologias orais acima descritas e em particular a periodontite podem ser prevenidas ou minimizada a sua gravidade com recurso a boas práticas de higiene oral. Estas devem, evidentemente, ser adotadas por toda a população em geral, mas com importância redobrada nas pessoas com diabetes. A placa bacteriana, que é um conjunto de bactérias, restos alimentares e saliva, está em constante formação na nossa boca, pelo que é importante que a consigamos remover antes que calcifique e se transforme em tártaro ou cálculo, que tem consistência dura e apenas consegue ser removido por um profissional.


Para uma correta higiene oral existem alguns passos que devem ser seguidos:

  • Escovagem dos dentes pelo menos duas vezes por dia, nomeadamente de manhã preferencialmente após o pequeno-almoço, e à noite antes de deitar
  • Remoção de placa interdentária, uma vez que as escovas de dentes não conseguem entrar entre os dentes, com recurso a fio/fita dentária ou escovilhões
  • Higienizar sempre a língua, idealmente com recurso a instrumentos próprios como os raspadores de língua
  • Agentes químicos como pastas de dentes, géis, elixires ou colutórios. Dependendo da especificidade de cada um, existem no mercado produtos direcionados para pessoas com diabetes e para ajudar a tratar alguns problemas tais como o mau hálito e boca seca, entre outros.


Desta forma, é de extrema importância a inclusão da consulta de medicina dentária no acompanhamento regular destes doentes.


Fonte: Jornal Médico