Pandemia vai pesar nas doenças oncológicas e saúde mental

O diretor do serviço de infecciologia do Centro Hospitalar de Setúbal, José Poças, defende que o impacto da pandemia vai fazer sentir-se a vários níveis, sobretudo nas doenças oncológicas e saúde mental.

O diretor do serviço de infecciologia do Centro Hospitalar de Setúbal, José Poças, defende que o impacto da pandemia vai fazer sentir-se a vários níveis, mas sobretudo nas doenças oncológicas e na saúde mental de doentes e profissionais de saúde.

Eu não tenho dúvidas nenhumas do impacto que se vai sentir a muitos níveis, na saúde mental, por exemplo, e não só dos doentes, mas dos próprios profissionais [de saúde]. Eu não tive metade das minhas férias”, afirma o especialista, em entrevista à agência Lusa.

Quando questionado sobre o impacto nos doentes não Covid, uma vez que muitos rastreios estiveram suspensos e que houve consultas e cirurgias adiadas, o especialista reconheceu que “as pessoas têm de perceber que, perante a impossibilidade, que toda a gente entende, de fazer duas coisas, temos que optar por fazer uma”.

Se temos uma pandemia não podemos tratar todos como mereciam. Então nós temos que tentar acabar com a pandemia o mais depressa possível para voltarmos a tratar os outros doentes”, refere José Poças.

Sublinha ainda que as falhas para com os doentes não Covid não aconteceram “na mesma proporção” em todas as áreas.

Segundo dados divulgados pelo Movimento Saúde em Dia, liderado pela Ordem dos Médicos e pela Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares, existiu uma redução de entre 30 a 50% de encaminhamento de doentes para consulta de especialidade nos hospitais. Também se realizaram menos 25 milhões de exames de diagnóstico (-25%) e ficaram por fazer milhares de rastreios aos cancros da mama, do colo do útero, do cólon e reto.

Há aqui um fenómeno: as pessoas têm medo de ir. Só as pessoas que tinham mesmo de ir é que foram. A maior parte conteve-se”, disse o diretor do serviço de infeciologia do Centro Hospitalar de Setúbal, dando conta de casos de doentes “a dizerem que estavam convictos de que tinham situações muito menos graves que aquelas que nós estávamos a tratar e, portanto, queriam poupar-nos para nós nos dedicássemos aos outros”.

Mas acho que o grande impacto vai ser sobre aquelas doenças que, estando presentes, não dão sintomas numa primeira fase, como as doenças oncológicas. Há imensos exemplos”, conclui.