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A dor dos “doentes esquecidos” em era Covid-19

Nos tempos que correm fala-se frequentemente de doentes críticos e de cuidados intensivos e, nesta temática, penso que é do entendimento de todos que estes casos exigem cuidados prioritários.

por Maria Pieri, in www.jornalmedico.pt/opiniao/40432-a-dor-dos-doentes-esquecidos-em-era-covid-19.html

Nos tempos que correm fala-se frequentemente de doentes críticos e de cuidados intensivos e, nesta temática, penso que é do entendimento de todos que estes casos exigem cuidados prioritários. Contudo, eu sou médica de família e venho aqui falar-vos do meu universo – os doentes crónicos. Muitos destes indivíduos apresentam problemas graves, tais como a diabetes mellitus, doenças oncológicas, entre outros, e ficaram sem o meu acompanhamento, o que resultará, infelizmente, em sequelas graves.

Sou médica há 25 anos, não nasci em Portugal, mas vivo neste país há 20 anos e atualmente trabalho numa instituição pública de prestação de cuidados de saúde primários. Como uma pessoa que “vem de fora” e “vê de fora”, conheço outras realidades, todavia quero deixar isto claro: o Serviço Nacional de Saúde (SNS) português é um excelente sistema. Não obstante, a atual pandemia permitiu perceber que este é maltratado e desrespeitado pelos portugueses e, face a uma difícil gestão dos seus escassos recursos, demos por nós a “remar contra a maré” e perdemos doentes não infetados por COVID-19 que poderiam ter sido salvos. Apesar disso, tenho esperança de que este momento difícil que atravessamos contribua para o fim de alguns dos maus vícios, interesses e injustiças no SNS.

Gostaria de partilhar um dos momentos que vivi com os meus utentes e que marcou a minha vida pessoal e profissional – em outubro, perdi um utente. Um utente, já doente, com o qual me encontrei no carro porque, já sem forças para caminhar, queria muito falar comigo. A esposa procurou-me na Unidade e pediu-me para ir até ao parque de estacionamento falar com ele. “Doutora Maria, finalmente encontramo-nos! A doutora abandonou-me… foi cuidar dos ‘COVIDs’ e nunca mais voltou! Já fiz os exames que pediu em março, mas não consegui falar consigo. Correu mal, tive de ir à urgência e, pelos vistos, a situação está muito complicada.” Perguntei-lhe por que razão não tinha mostrado os exames a outro médico, ao que o doente respondeu “foi a doutora que pediu os exames, é a minha médica há tantos anos… Como poderia ir a outro médico? Eu queria a minha médica, mas o COVID roubou-a da gente!”. Fiquei triste, revoltada e a remoer as suas últimas palavras, com a certeza de que seria uma expressão que ficaria para sempre na minha memória. Alguns dias depois, ele contactou-me novamente – “Doutora, sei que está muito ocupada, mas queria dizer-lhe que estou a morrer e quero muito agradecer-lhe por tudo o que fez por mim e pela minha família todos estes anos!”. Nesse dia fiquei “anestesiada”, como se a sua voz entoasse na minha cabeça…

Este utente faleceu no final de outubro, contudo ainda hoje consigo ouvir as suas palavras carregadas de “abandono” e também de gratidão. Dou por mim a questionar quando é que esta maldita epidemia vai terminar e como nós – médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde – iremos ultrapassar estas experiências traumáticas que nos acompanharão para o resto da vida. Resta-nos, sempre, alguma esperança…

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