Ricardo Pocinho

“Vamos transformar Portugal num grande hospital psiquiátrico”

Ricardo Pocinho, presidente da Associação de Gerontologia Social, defende que a pandemia terá impactos na saúde mental dos portugueses a longo prazo, e que é preciso olhar para os isolamentos e para os confinamentos sem esquecer o contexto da história pessoal.

Desde o início da pandemia uma das principais preocupações dos profissionais de saúde tem sido o efeito na saúde mental. Os que se isolam para se proteger de uma doença podem abrir janelas a outras.

Um estudo da Universidade de Coimbra explica que as medidas de isolamento provocadas pela pandemia de Covid-19 causaram uma queda abrupta na autonomia, mas também das capacidades cognitivas e funcionais dos idosos que não vivem em lares, e aumentos drásticos das queixas de perda de memória.

Ricardo Pocinho, presidente da Associação de Gerontologia Social, acredita que a situação é “absolutamente preocupante“, e antevê consequências dramáticas para a toda a sociedade. “Sabemos que a consciência, a memória, aquilo que é o nosso espírito cognitivo e as nossas reservas emocionais têm um processo de deterioração muito rápido“, admite o responsável. Por isso, os processos de imersão “em sentimentos negativos” são muito rápidos.

Na perspetiva de Ricardo Pocinho, também “temos de pensar que este tempo é influenciado naturalmente por aquilo que foi a infância destas pessoas“. Assim, perturbações do foro mental não poderão ser vistas isoladamente. “Estamos a falar de pessoas já com reservas cognitivas baixas, porque tiveram infâncias complicadas, vidas difíceis“, aponta o presidente da Associação de Gerontologia Social, assinalando ainda casos de “pessoas que viveram a diáspora dos anos 1960 e emigraram”, de “algumas pessoas do género masculino que conviveram com a realidade da guerra de ultramar” e de “mulheres que lidaram com a ausência dos maridos”.

Foi a realidade dos nossos idosos em Portugal, ou da grande maioria deles“, constata o representante da Associação de Gerontologia Social. Ricardo Pocinho reconhece estar preocupado. “Se este processo se alargar durante muito tempo, nós vamos transformar Portugal num grande hospital psiquiátrico.”

Esta pandemia “deixará uma marca por muitos anos” e não só durante o tempo “que demorarmos a encontrar uma vacina”, sustenta Ricardo Pocinho, que remata: “A lesão que provoca este isolamento, a sintomatologia de solidão, aquilo que é a não existência de atividades… Quanto mais o tempo passar, e não é preciso que dure muito mais tempo, as lesões vão ser enormes por conta do que já decorreu, e também nos funcionários destas instituições, nos funcionários da saúde e se calhar nos portugueses em geral“.

Fonte: www.tsf.pt/portugal/sociedade/vamos-transformar-portugal-num-grande-hospital-psiquiatrico-13073743.html