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Fintar a Covid-19. Idosos recuperam e trazem histórias de esperança

Os idosos estão entre os grupos mais vulneráveis ao novo coronavírus. Mas começam a surgir cada vez mais relatos de pacientes que debelaram o vírus, simbolizando esperança para milhares de doentes.

Relatórios da Organização Mundial de Saúde (OMS) e da Direção-Geral de Saúde (DGS) colocam os mais velhos entre os mais suscetíveis e a encabeçar as estatísticas de letalidade. Mais de 80% dos óbitos por covid-19 em Portugal ocorre em pessoas com idades acima dos 70 anos. Mas há boas notícias que provam que as estatísticas podem falhar.

Por cá, existem motivos de regozijo, sobretudo depois de na terça-feira o secretário de Estado da Saúde, António Lacerda Sales, ter falado no caso de uma idosa de 93 anos, com um quadro clínico grave, que recuperou da covid-19. Mais do que números, é um sinal de esperança em tempos de inquietude. A paciente, residente na Grande Lisboa, recuperou após 11 dias de internamento. Já se encontra em casa, onde vive com o marido.

Da China chegam relatos de um homem de 100 anos que recuperou do coronavírus e recebeu alta hospitalar, segundo a agência estatal chinesa Xinhua. O idoso fazia parte de um grupo de mais de 80 pacientes infetados com covid-19 que receberam alta de um hospital em Wuhan, a capital da província de Hubei, o epicentro do surto. O homem nasceu em fevereiro de 1920 e tinha acabado de completar o seu 100º aniversário. Foi internado a 24 de fevereiro depois de um diagnóstico positivo ao novo coronavírus. Além de ter a doença de Alzheimer, sofre também de hipertensão e doença coronária. Devido ao seu quadro clínico, os médicos tentaram de tudo, incluindo um tratamento antiviral, medicina tradicional chinesa e terapia à base de plasma de um paciente em convalescença.

Outras duas pacientes de um lar no epicentro da crise do novo coronavírus nos EUA também recuperaram, após terem dado positivo nos testes.

Outro relato mais do que bem-vindo em tempos de desânimo vem de Itália. Na cidade de Rimini, na costa adriática, a região do país mais afetada pela epidemia do SARS-Cov-19, um homem com 101 anos recebeu alta hospitalar e foi autorizado a ir para casa, engrandecendo agora a coluna dos casos recuperados. Tornou-se num símbolo de esperança, sobretudo quando considerada a elevada taxa de letalidade que este vírus está a ter na população italiana com mais de 70 anos – mais de 80% das mortes no país foram registadas em pessoas desta faixa etária. Este cidadão italiano de 101 anos faz agora parte do grupo de pessoas acima dos 90 anos que sobreviveu à infeção.

Também a Coreia do Sul viu na quinta-feira passada a sua paciente mais velha deixar o hospital, quando uma mulher de 97 anos de Cheongdo (cidade próxima de Daegu, o pior surto do vírus no país) foi dada como recuperada.

E os casos de recuperação de idosos acumulam-se. Do Irão, outra boa notícia. Mais uma idosa recuperou. Uma mulher com 103 anos debelou a doença.

Também de França multiplicam-se os relatos de idosos que venceram o vírus. Casos que trazem alento face aos balanços diários dramáticos da epidemia. A emocionar o país está ainda a história de recuperação de um casal de idosos. Henri Marchais, de 90 anos, e a mulher, Monique, de 88, ficaram doentes e foram internados juntos, no mesmo quarto, no hospital Bichat de Paris. Juntos venceram a doença. Já em casa, continuam a acatar o distanciamento social, enquanto aguardam ansiosamente a oportunidade de poder abraçar e beijar de novo os 26 netos e bisnetos.

As lições que devemos aprender com os pacientes mais velhos

Face a estes casos de sucesso, torna-se cada vez mais premente entender as variáveis que colocam os idosos em maior risco, para que se possam desenvolver estratégias para proteger a sociedade como um todo.

A função imunológica diminui com o avançar da idade, tornando-nos mais suscetíveis a doenças mais graves. À medida que envelhecemos, os mecanismos de defesa desgastam-se. Não só o organismo tem mais dificuldade em combater novas infeções, como o covid-19, como também é mais provável que se seja afetado por doenças crónicas que tornam o sistema imunitário mais fraco.

Como o nosso corpo se deteriora no combate a agentes invasores

Nos idosos, o número de glóbulos brancos (leucócitos) – que ajudam a combater infeções – pode decrescer. As células também se tornam menos hábeis em identificar novos agentes patogénicos. No caso do covid-19, o vírus também pode danificar as células imunológicas que, de outra forma, seriam capazes de debelar a doença. E quanto menos células, mais severa será a patologia.

A função imunológica vai enfraquecendo com o avançar dos anos“, segundo Sean Leng, geriatra e professor de medicina na Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins (EUA).

Quando é desencadeada uma resposta à infeção, o sistema imunológico de um idoso tem mais probabilidades de reagir de forma exagerada – e perigosa. Um fenómeno conhecido como “cascata de citocina“, uma reação imune potencialmente fatal. As citocinas são proteínas que servem como sinais para o corpo acelerar o seu mecanismo de combate a infeções.

Porém, quando ocorre esta “cascata“, as citocinas são produzidas em excesso, provocando inflamações graves, febres altas e falência de órgãos. Por outras palavras, “não é apenas uma resposta lenta a infeções que pode por em risco os idosos; a reação exagerada do sistema imunológico a um agente invasor também pode matar“, sublinha Leng.

A causa de morte do novo coronavírus é, em primeiro lugar, insuficiência respiratória e, em seguida, provavelmente a cascata de citocina, acrescenta a especialista. A boa notícia, como relataram dois médicos da Universidade do Alabama, em Birmingham, ao site de notícias Vox, é que existem tratamentos para esta reação imune, o que poderá ajudar a salvar um número significativo da população mais idosa neste surto.

Por outro lado, os idosos também têm maior prevalência de doenças crónicas. A mais comum é a hipertensão, seguida da cardiopatia isquémica e diabetes. Juntamente com sistemas imunológicos enfraquecidos, estas doenças subjacentes podem ser um entrave ao combate de infeções. É importante perceber que o problema não é a idade, mas sim envelhecer com doenças crónicas, que podem degradar os órgãos e torná-los mais vulneráveis a infeções. Além disso, os tratamentos para essas condições clínicas podem suprimir o sistema imunológico, deixando o organismo mais suscetível a agentes patogénicos.

Fonte: www.dn.pt

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